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Curiosidades e Fatos

7 alimentos que todo mundo acha 100% brasileiro mas foram importados no império

Descubra como a chegada da Corte Portuguesa e os hábitos do século XIX mudaram o almoço de domingo, trazendo ingredientes que hoje juramos que nasceram aqui.

Imagem editorial ilustrando 7 alimentos que todo mundo acha 100% brasileiro mas foram importados no império

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Se você perguntar a qualquer estrangeiro qual é a cara do Brasil na hora de comer, a resposta provavelmente vai pular em feijoada, churrasco e, claro, uma caipirinja para acompanhar. Temos essa mania coletiva de achar que nossa culinária brotou do chão da Bahia ou do sul de Minas pronta e definitiva, mas a história é muito mais viajada — e politizada — do que parece.

Muitos dos itens que consideramos "irmãos" da mandioca e do pirarucu só chegaram aqui graças a uma série de acidentes históricos, interesses comerciais da nobreza e, principalmente, a vinda da Família Real em 1808. O período imperial não foi só de ruas pavimentadas e bibliotecas; foi a maior revolução na despensa brasileira. O que comemos no almoço de domingo é, na verdade, um mapa-múndi disfarçado de comida caseira.

Pegue o seu garfo e venha conferir o que a sua família come sem saber que, um dia, foi novidade exótica na mesa de D. Pedro II.

Cerveja: o hábito que a nobreza exigiu

Antes da Família Real pisar no Rio de Janeiro, se um brasileiro bebesse algo amargo e fermentado, com certeza seria cachaça ou vinho do Porto. A cerveja líquida e gelada que vemos nos bares hoje é uma importação cultural direta do gosto palaciano europeu. A elite portuguesa trazia o hábito, mas o problema era logístico: o calor tropical estragava a bebida na travessia do Atlântico.

A solução? Começar a produzir aqui. A primeira grande cervejaria "brasileira", a Bohemia, só nasceu em 1853 em Petrópolis, trazendo mestres cervejeiros da Alemanha. Antes disso, bebia-se cerveja importada e, acredite, quente. A popularização do chope gelado no fim de semana é uma herança direta da urbanização do Rio de Janeiro no século XIX, imitando os cafés de Paris e Lisboa. Seu avô talvez não imagine, mas aquela latinha no final do jogo de futebol existe porque D. João VI não queria abrir mão dos seus hábitos europeus na terra tropical.

O café que virou nossa alma

Aqui tem um troco curioso. O Brasil é o maior produtor mundial de café há séculos, e o grão é o símbolo máximo da nossa agricultura. Mas a planta (Coffea arabica) não é daqui. Ela veio da Guiana Francesa, contrabandeada por Francisco de Melo Palheta em 1727, muito antes do Império, mas foi no século XIX que a coisa explodiu.

A "cafeticultura" foi o motor econômico que bancou o Brasil Império. O Vale do Paraíba se transformou para atender ao mercado externo, e o hábito de tomar café pela manhã substituiu o ancião chocolate quente ou o pão com carne seca nas casas urbanas. A aristocracia brasileira copiou o ritual das casas de chá e café europeias. O que chamamos de "cafezinho", essa instituição nacional de hospitalidade, é uma adaptação brasileira de um hábito de consumo da aristocracia europeia que se massificou porque o grão encontrou aqui o solo perfeito para multiplicar.

Alface: a substituta das verduras nativas

Quando vamos ao mercado, achamos que salada é sinônimo de alface e tomate. Mas, até o início do século XIX, a salada de um brasileiro médio tinha muito mais ora-pro-nóbis, bertalha, taioba e serralha. A alface (Lactuca sativa) é uma planta de clima temperado e era vista como um artigo de luxo, difícil de cultivar no calor da costa.

Com a vinda da Corte, houve uma pressa em "europeizar" a mesa. Foram criadas hortas e quintais adaptados para tentar fazer crescer essa folha frágil e cara. O sucesso marginal da alface no Brasil é fruto de um esforço agrícola gigantesco para impor um padrão estético europeu de alimentação — "comer salada" passou a ser sinônimo de civilização, relegando as verduras nativas ao status de "comida de pobre" ou comida de origem africana, o que é um erro histórico que estamos demorando a corrigir.

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Pimenta malagueta: a confusão africana

Essa talvez seja a maior traição da memória culinária. A pimenta malagueta, onipresente na moqueca e na feijoada, tem origem africana. Foi trazida para cá pelos escravizados no tráfico negreiro. As verdadeiras pimentas nativas do Brasil são a biquinho e a dedo-de-moça (Capsicum baccatum).

A malagueta se adaptou tão bem ao clima e ao solo que virou parte inseparável da culinária baiana e mineira. A ironia histórica é que um ingrediente que simboliza a "resistência" e o "sabor do povo" na verdade veio de fora, justamente atravessando o Atlântico nas porões dos navios negreiros. Hoje, é impossível imaginar uma feira livre sem ela, mas sua presença aqui é resultado de uma das páginas mais trágicas da nossa história.

Laranja: a chinesa que dominou os pomares

Brasil é sinônimo de cítricos. Exportamos suco de laranja para o mundo todo. No entanto, a laranja-doce (Citrus sinensis) é nativa da Ásia, especificamente da China e da Índia. Os portugueses trouxeram as sementes durante as Grandes Navegações, mas foi no Brasil, especialmente no clima de São Paulo, que a fruta encontrou seu "habitat" perfeito.

No início do período colonial, a laranja era mais uma planta de quintal, mas durante o Império, com o avanço do café e a necessidade de diversificação, os pomares cresceram. O que acontece é uma "naturalização" geográfica: como a laranja cresce tão bem em qualquer quintal brasileiro, e estamos acostumados a ver o pé na calçada, nossa cabeça assume que ela é daqui, esquecendo que é uma imigrante que se naturalizou melhor que muitos descendentes de portugueses.

Azeite de dendê: o coração da Bahia que veio de fora

Parece impossível falar de acarajé ou vatapá sem o óleo vermelho brilhante do dendê. Mas a palmeira (Elaeis guineensis) também é originária da Costa Ocidental da África. A chegada do dendê no Brasil coincide com a chegada dos povos iorubás e bantos.

O curioso é como a cultura de importação do Império, focada em produtos brancos e europeus, conviveu paralelamente a essa importação forçada africana, que acabou por definir a culinária de uma região inteira. Enquanto a corte francesa influenciava o molho branco nas sobremesas, os terreiros de candomblé garantiam que o dendê continuasse fluindo, criando um dualismo na nossa culinária que persiste até hoje. Não é à toa que a culinária baiana é, antes de tudo, afro-brasileira, e não "portuguesa adaptada".

Pão de trigo: o brinquedo caro da elite

Para finalizar, o símbolo máximo do café da manhã: o pãozinho francês ou a baguete. O trigo não cresce bem na maior parte do Brasil tropical. Durante todo o período colonial e imperial, a farinha de trigo era um produto de importação caríssimo, vindo principalmente da Argentina ou do Canadá, e consumida apenas pelas classes altas.

O pão que comemos hoje é fruto de uma tecnologia logística de importação que era, na época, um verdadeiro milagre de refrigeração e transporte. O hábito de "pão com manteiga" no café da manhã é uma cópia direta da mesa aristocrática europeia que a classe média brasileira passou a imitar no século XX. O sustento real do povo brasileiro era, e deveria continuar sendo em parte, a farinha de mandioca — nosso verdadeiro pão nativo — que o imperialismo culinário tentou, sem sucesso total, colocar de escanteio.


O que vemos na mesa hoje é resultado de uma fusão caótica de interesses. O Império não trouxe apenas leis e burocracia; ele trouxe sementes, gostos e modos de comer que sufocaram em parte a nossa biodiversidade original, mas que também enriqueceram o que chamamos de comida brasileira. Não se trata de demonizar o que foi importado — afinal, quem vive sem um cafézinho ou uma feijoada temperada com alho? — mas de entender que nossa identidade é construída, não herdada geneticamente.

Na próxima vez que você for ao mercado para comprar ingredientes para o domingo, olhe para a embalagem ou para a origem daquele item. Você está comprando um pedaço da África, um pedaço da Ásia e um pedaço da Europa que a história, com suas imperfeições, decidiu plantar no nosso quintal. A verdadeira "brasilidade" não está nos ingredientes em si, mas na nossa capacidade de misturar tudo isso e chamar de nosso. Se curioso por saber como outras verdades históricas foram distorcidas pelo tempo, recomendo conferir Mito vs Realidade: O que os vampiros do folclore real tinham que os de cinema esqueceram.

Pense nisso quando temperar o feijão: você é um historiador na cozinha.

Mariana Costa Souza
Mariana Costa SouzaEditora Sênior de Entretenimento e Cultura

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